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Nietzsche ORIGEM RELIGIOSA DA MÚSICA MODERNA PDF Imprimir E-mail

Livro: HUMANO, DEMASIADO HUMANO
Friedrich Nietzsche – Vol. 01 – Ed. Companhia de Bolso

ORIGEM RELIGIOSA DA MÚSICA MODERNA (página13 )

219 – A música cheia de alma surge no catolicismo restaurado após o Concílio de Trento, com Palestrina [Giovanni Pierluigi da Palestrina (1524-1594), compositor italiano], que providenciou sonoridades para o espírito recém-desperto e profundamente movido; depois com Bach, no protestantismo, na medida em que este foi aprofundado e despojado de seu dogmatismo original pelos pietistas (1).  Um pré-requisito e estágio preliminar necessário, nas duas origens, foi ocupar-se da música tal como se fazia na época do Renascimento e Pré-renascimento, isto é, de maneira douta, com aquele prazer, no fundo científico, pelos artifícios da harmonia e do contraponto. E também foi necessário o precedente da ópera: na qual o leigo manifestava seu protesto contra uma música que se tornaria fria, excessivamente douta, e pretendia devolver a Polímnia (2) sua alma. Sem essa mudança profundamente religiosa, sem o ressoar de um ânimo intimamente tocado, a música teria permanecido douta ou operística; o espírito da Contra-Reforma é o espírito da música moderna (pois o pietismo da música de Bach é também uma espécie de Contra-Reforma). Tão profunda é a nossa dívida para com a vida religiosa. – A música foi a Contra-Renascença no domínio da arte; a ela se relaciona a pintura de Murillo, e talvez também o estilo barroco; em todo caso, mais que a arquitetura da Renascença ou da Antiguidade. E agora podemos perguntar: - Se a nossa música moderna pudesse mover as pedras, chagaria a junta-las numa arquitetura antiga? Duvido bastante.Pois aquilo que reina nessa música, o feto, o prazer em disposições elevadas e exaltadas, o querer a vitalidade a todo preço, a brusca mudança de sentimento, o intenso relevo em luz e sombra, a justaposição do estático e do ingênuo – tudo isso já reinou nas artes plásticas e criou novas leis de estilo: - mas não na Antiguidade, nem na época da Renascença.

(1) [Do fr. piétisme.] S. m. Movimento de intensificação da fé, nascido na Igreja Luterana alemã no séc. XVII. P. ext. Ato de afirmar a superioridade das verdades da fé sobre as verdades da razão. Ou ainda: Movimento luterano iniciado por Phillip Jakob Spener no século 17, enfatizando a experiência religiosa direta por parte do indivíduo.

(2) [Do mit. gr. Polýmnia, 'a musa da retórica'] Adj. Ou ainda: a musa do canto, entre os gregos.

 

 


Frases...

 

Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além.

Paulo Leminski

 

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