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Pasquale C. Neto FOLHA DE S. PAULO PDF Imprimir E-mail

São Paulo, quinta-feira, 08 de maio de 2008

PASQUALE CIPRO NETO

A questão sai do território gramatical e entra no estilístico. A ênfase sobre o sujeito impõe a separação

ACABO DE CHEGAR DE Belo Horizonte, aonde fui para a palestra/show de lançamento de "Estrada Real de Villa Rica", belíssimo trabalho do músico e compositor mineiro Celso Adolfo.
Cuidadosamente elaborado (sob todos os aspectos -melodia, letra, arranjo, pesquisa histórica, linguagem etc.), o disco de Celso Adolfo traz uma verdadeira "trilha" sobre o caminho que a Metrópole construiu para levar o ouro de Minas Gerais para o mar e de lá para Portugal.
Por ser estética e conteudisticamente impecável, a obra constitui belo exemplo de um dos tantos instrumentos que a escola pode aproveitar para aproximar o jovem de universos culturais amplos e inseri-lo no mundo da intertextualidade.
Pois quero aproveitar uma passagem da primeira canção do disco ("Barcarola Lusitana") para comentar um caso lingüístico interessante.
Leia estes versos: "Entradas e Bandeiras da Coroa / lisboetas vindo de Lisboa / fizeram-se ao mar, todos na proa / fizeram-se ao mar na esperança / de o mar lhes revelar Minas Gerais...". O caso que quero comentar está no emprego de "de o" ("na esperança de o mar lhes revelar...").
Já escrevi neste espaço sobre a famosa expressão "Está na hora de a (ou "da') onça beber água", que, por sinal, foi o título daquela coluna.
O que justifica a possibilidade de separação ("de a") em casos como esse? O fato de a preposição "de" reger a oração infinitiva, de cujo sujeito ("a onça") faz parte o artigo ("a", no caso). E o que justifica a possibilidade de contração ("da")?

Permito-me reproduzir aqui o que diz Mestre Evanildo Bechara: "(Trata-se) do contato de dois vocábulos que, por hábito e por eufonia, costumam vir incorporados na pronúncia".

"Então tanto faz?", devem estar perguntando os mais apressados e/ ou pragmáticos. O leitor habitual deste espaço talvez já saiba o que vou dizer: a resposta não é "tanto faz"; é "depende". E depende do quê? Como (bem) diz o próprio Bechara, a questão sai do território gramatical e entra no estilístico. O fato é que, quando se quer enfatizar o sujeito, a separação ("de o", "de a") se impõe. Volte aos versos de Celso Adolfo e funda a preposição com o artigo. Teríamos isto: "Fizeram-se ao mar na esperança do mar lhes revelar...". Agora compare com o que fez Adolfo ("...na esperança de o mar lhes revelar..."). Que lhe parece?
Salvo engano meu, a forma adotada na letra dá à preposição "de" e ao papel do mar na frase ênfase (e clareza) que não haveria com a opção pela forma contraída. Some-se a isso o fato de que esse emprego de "de o" faz o leitor tarimbado afastar imediatamente a possibilidade de ocorrência de um adjunto de "esperança" (o passo "a esperança do mar" poderia levar o leitor, num primeiro momento, a ver o mar como o detentor da esperança -não nos esqueçamos de que na linguagem poética isso é perfeitamente possível).

Sofistas profissionais talvez já estejam prontos para sair por aí dizendo que este texto condena o emprego de "do" ou "da" em casos como os vistos. Talvez fosse desnecessário, mas, em tempos bicudos e neomacarthistas como os nossos, parece conveniente dizer com todas as letras: está na hora de o (ou "do') usuário da língua saber que a escolha desta ou daquela forma implica enfatizar este ou aquele elemento. É isso.
 

 
Irineu Franco FOLHA DE S. PAULO PDF Imprimir E-mail

FOLHA DE SÃO PAULO – 02/05/2008.

IRINEU FRANCO PERPETUO
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA 

Os passos dessa estrada partem do Clube da Esquina, mas fazem escala no mundo da modinha e nas veredas do grande sertão.
Em 57 minutos de música, divididos por 18 canções, Celso Adolfo realiza uma visita contemporânea, e com sotaque mineiro, ao passado colonial brasileiro, em "Estrada Real de Villa Rica".
Autor de trilhas sonoras para o Giramundo, grupo de teatro de bonecos de Álvaro Apocalypse, Celso Adolfo, 55, estreou em 1983 com "Coração Brasileiro", produzido por Milton Nascimento, que também gravou a canção-título do álbum no disco "Anima" (a música ainda seria registrada por Elba Ramalho, dando nome a um LP da cantora paraibana).
Trabalhando com elementos da tradição oral mineira, como a folia, o catupês e o cateretê, Celso Adolfo se lança à ambiciosa tarefa de fazer uma descrição poético-musical do Caminho Novo, a via aberta construída entre 1698 e 1707 pelo bandeirante Garcia Rodrigues Paes (filho de Fernão Dias) para ligar o Rio de Janeiro a Minas Gerais, substituindo, com ganhos de segurança e velocidade, o Caminho Velho (que dava em Paraty).
Para dar conta da empreitada, o músico lança mão de um vasto arcabouço poético, que inclui citações a Castro Alves ("O Navio Negreiro"), Guimarães Rosa (um trecho de "Grande Sertão: Veredas") e até a estrofe de um batuque de domínio público.

Violino e viola caipira
A variedade dos versos, coerentemente, encontra eco nas sonoridades de "Estrada Real de Villa Rica" -Celso Adolfo chega a colocar letra em uma modinha anônima encontrada em Diamantina, no século 19.
Instrumentos "eruditos", como o cravo, o violino e a flauta doce, convivem com o dedilhado rasgado da viola caipira e com efeitos de guitarra e teclados eletrônicos, assim como o melodismo singelo e a rítmica pronunciada do sertão caminha ao lado de harmonias "modernas" e urbanas no estilo Clube da Esquina.
Com participações breves e pontuais de Renato Braz, Vander Lee e Fernanda Takai, entre outros, o disco, conduzido pelo vocal sóbrio e sem afetação do próprio Celso Adolfo, se deixa ouvir de maneira agradável mesmo por quem não tem especial ligação com a cultura de Minas Gerais.

 
Edson Wander O POPULAR-Goiânia PDF Imprimir E-mail

O POPULAR - Goiânia, 10 de Dezembro de 2008


CD "ESTRADA REAL DE VILLA RICA" - Trilha musical do ouro de Minas


Músico se debruça sobre o período colonial e faz sua trilha da estrada que ligava Ouro Preto a Paraty

Edson Wander


Há um projeto em Minas Gerais que pretende recuperar, para fins turísticos, a estrada que escoava o ouro do País no período colonial. A chamada Estrada Real de Villa Rica, que ligava Ouro Preto a Paraty, foi construída entre 1698 e 1705.

Foi um veio aproveitado de tropeiros e índios que, na esteira do escoamento da riqueza mineira, logrou ao Estado um esteio de desenvolvimento social e cultural (cerca de 90% do percurso está em Minas). A trilha musical mais conhecida dessa época é a barroca de nomes como Lobo de Mesquita, Antônio Lopes Serino, Manoel Dias de Oliveira e outros músicos que serviam à igreja e à corte portuguesa.

O cantor e compositor Celso Adolfo, um dos melhores nomes da turma pós-Clube da Esquina, inspirado pelo projeto de retomada da Estrada, quis compor uma nova trilha para o período. Uma trilha popular própria, com ecos da harmonia barroca que há muito inunda a produção de música popular no estado.

Projeto aprovado em lei de incentivo, Adolfo registrou 18 músicas próprias e com parceiros e uma lista grande de músicos e cantores convidados. Estrada de Villa Rica, o disco, tematiza lugares, passagens e personagens conhecidos e anônimos das várias cidades que a estrada perpassa com seus cerca de 1480 quilômetros.

“Nos estudos que fiz sobre a estrada fui juntando minha própria memória e reencontrando gêneros musicais espalhados por todos os lugares que a margeiam”, disse Celso Adolfo sobre o cabedal de ritmos abordados no CD, que vão de uma modinha anônima conhecida de Diamantina (e letrada por ele), samba-de-roda, a folia de reis e o vasto cancioneiro formado na cultura mineira.

Para recuperar o roteiro e o vocabulário do período, o músico leu obras que, segundo ele, são referenciais no estudo da estrada. Cita entre elas Os Caminhos do Ouro e a Estrada Real, do professor da UFMG Antonio Gilberto Costa, que assina um texto no caprichado encarte bilíngüe do disco, feito em bonito e diferente formato digipack (em caixinha de papelão).

O prefeito de Ouro Preto, Angelo Oswaldo, jornalista e crítico de arte, também assina texto no encarte e cedeu a letra da moderna toada Canoa do Guaicuí, de coro feito por ótimos nomes da nova música mineira (Vander Lee, Maurício Tizumba, Fernanda Takai, Regina Spósito, Marina Machado e outros).

É música que faz sonoro par com a abertura do CD, Barcarola Lusitana, canção que reprisa o violão arpejante e a melodia redondinha de Adolfo. A música de verso curto e único saiu do longo poema Entradas e Bandeiras que Celso Adolfo escreveu logo no início da pesquisa para o CD.

Além do convidados mineiros, a música conta com a voz do paulista Renato Braz. Outros parceiros de composição no disco são o baixista Iuri Popoff (melodista da folia Catopê) e Leo Minax, mineiro radicado na Espanha, com quem veio novas três faixas, as mais pop e menos interessantes do álbum.

Disco temático, esse oitavo trabalho de Celso Adolfo tinha clima para ele aprofundar a sonoridade camerística ensaiada no anterior. Mas ele diz que esse projeto só terá continuidade num próximo CD, já batizado de Colonial. Adolfo estará amanhã em Brasília para um show deste novo disco

Disco: Estrada Real de Villa Rica
Artista: Celso Adolfo
Gravadora: independente
Preço médio: R$ 28

 
César Macedo DIÁRIO DA TARDE PDF Imprimir E-mail

DIÁRIO DA TARDE – 03 de Abril de 2003.

César Macedo

É muito apropriada e espécie de epígrafe que Celso adotou em seu novo CD:

“Isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além”.

Esse poema minimalista de Paulo Leminski sugere que todos devem seguir as suas convicções, procurar trilhar caminhos próprios sem se aventurar por desvios sugeridos por terceiros. Seguir o próprio caminho sem ligar muito para os modismos e sem desviar o foco um milímetro da sua proposta estética sempre foi uma marca registrada do mineiro Celso Adolfo. Talvez, por isso mesmo, ele tenha ficado um pouco à margem do chamado grande mercado fonográfico.

 
Ailton Magioli ESTADO DE MINAS PDF Imprimir E-mail

ESTADO DE MINAS – Belo Horizonte – 04 de Abril de 2003.

Ailton Magioli

Testada e aprovada, a veia romântica de Celso Adolfo está em alta, mas o que chama mesmo a atenção no trabalho do artista é a sua assumida brasilidade, presente no seu novo disco O TEMPO, um CD cheio de charme e cuidado artesanal.

 
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Frases...

 

Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além.

Paulo Leminski

 

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